Faixa FM estendida

Agora a faixa FM começa em 76MHz. Conteúdo produzido e apresentado pelos RANCHEIROS na Edição 318 da NETBR (DVBrazil TG 724942 21hs Terças-Feiras UTC-3)

Você provavelmente já ouviu falar da “faixa estendida de FM” ou notou propaganda de emissora indicando frequências que estão abaixo do tradicional 88MHz de seu rádio FM.

Primeiro vamos entender como surgiu a ideia. Com a migração da TV analógica para a TV digital, os canais analógicos de TV em VHF foram lentamente migrando para canais digitais na banda UHF, deixando vagos largos espectros de frequências. Os canais 2 a 4 da TV analógica, que ocupavam o espectro entre 54 e 72Mhz ficariam potencialmente sem uso, até que a Resolução 747 da Anatel a partir de 2024 destinou esta faixa para alocação em serviços de telefonia (STFC), comunicação multimídia (SCM), e Serviço Limitado Privado (SLP).

Já os canais 5 e 6 da TV analógica ocupando a faixa de 76 a 88MHz, seriam ocupados pela radiodifusão FM. A proposta aparece de forma explícita em um estudo técnico da Anatel de março de 2010 intitulado “A Extensão da Faixa de FM (eFM) e a Migração da Faixa de Ondas Médias”. O propósito da faixa estendida era bem objetivo: criar espaço novo para rádios que queriam sair do AM e ir para o FM, principalmente em mercados onde o dial tradicional já estava saturado.

Os primeiros testes práticos iniciaram em São Paulo em setembro de 2014, com a rádio “Jovem Pan AM 620” efetuando testes em 84,7 FM. Estes testes passaram por etapas com 200 W, depois 1 kW e chegaram a 1,5 kW, para verificar três aspectos: alcance do sinal, qualidade de recepção e eventual interferência em outros serviços. O ponto regulatório ocorreu com a Resolução Anatel nº 721 de fevereiro de 2020, que destinou a faixa de 76 MHz a 87,4 MHz para FM estendida, destinando 87,4 a 88 MHz para RadCom (Rádiodifusão Comunitária), e mantendo 88 a 108 MHz para a FM convencional. Vale lembrar que o “RadCom” é um tipo de serviço com finalidade comunitária e regras próprias de outorga e operação, é um serviço prestado em caráter secundário, com potência limitada a 25 watts ERP e cobertura dimensionada para algo em torno de 1 km a partir da antena.

A estreia oficial no ar aconteceu em 7 de maio de 2021, em uma inauguração que envolveu 10 estações em 7 capitais brasileiras. Entre elas estavam, por exemplo, Rádio Capital 77,5 FM e Cultura 77,9 FM em São Paulo, além de estações da Rádio Nacional e da EBC em várias capitais. Em paralelo, a indústria foi sendo empurrada a se adaptar: em 2017, uma portaria interministerial passou a exigir que aparelhos produzidos no Brasil saíssem de fábrica cobrindo 76 a 108 MHz; e em 2023 a Anatel voltou a cobrar uniformidade, inclusive em rádios automotivos, para que o público não ficasse sem acesso à nova faixa.

Entâo surge o questionamento: como podemos acessar esta faixa estendida se nossos rádios começam em 88MHz?

Em 2018 a fabricante Pioneer lançava os primeiros equipamentos destinados a uso automotivo iniciando em 76MHz. Curiosamente, alguns modelos da montadora Hyundai, como HB20 e Creta, e também da montadora Ford, já incorporavam a faixa estendida em seus rádios FM automotivos desde 2015. Temos agora um segundo questionamento: se a legislação de 2017 obrigou a produção de receptores FM com início em 76MHz somente a partir de 1º de janeiro de 2019, como já existiam receptores habilitados desde 2015?

A resposta para ambos os questionamentos: a “Banda Japonesa”.

Como vimos na NETBR 311 a radiodifusão FM inicialmente operava entre 42 e 50MHz, e após a segunda-guerra mundial o FCC realocou para a faixa de 88 a 108MHz, para acomodar os canais de TV analógica cuja banda consumia 6MHz por canal, e isto também vimos na NETBR 287 sobre a história da televisão. Em 1958 o Japão viria a padronizar a radiodifusão FM na faixa entre 76 e 90MHz, passando o canal 5 da TV analógica para 92MHz. Esta faixa entre 76 e 90MHz para FM é conhecida como “banda japonesa de rádio FM”.

A partir da década de 60 muitos fabricantes de receptores de rádio FM modificaram os circuitos para operarem entre 76 e 108MHz, apenas alterando o dial do rádio para que sintonizasse as frequências da região de destino do equipamento. Alguns deles nem ajustavam o dial, simplesmente os forneciam de 76 a 108, e isto podemos perceber em nossos receptores de radioamadorismo que permitem rádio-escuta de broadcast FM, eles naturalmente sintonizam a partir de 76MHz. Isto explica o motivo de muitos receptores FM já serem compatíveis com a FM estendida antes mesmo de sua criação.

Talvez alguns de vocês já tenham percebido o “pulo do gato”, o segredo está na limitação do dial. Nos receptores com dial digital, muito provavelmente é possível acionar algum menu de configuração que permite a seleção de banda: a banda regular 88-108, a banda japonesa 76-90 ou 76-95, e a banda “universal” de 76-108. Vale a pena verificar no manual de seu receptor FM se existe esta possibilidade de configuração de banda. Aqui na capital paulista, por exemplo, já existem muitas opções interessantes de estações operando na faixa estendida.

Sua cidade provavelmente já conta com estas novas estações FM, e muito provavelmente já estão ao seu alcance, basta sintonizar.